sábado, 10 de março de 2018

“A Relíquia”, de Eça de Queiroz – da “Biblioteca Universal” – no escritório da Crispim & Cia; patrão de perfil conservador; um convite para a missa na Ribeira e a resposta sincera de um descrente; o cavalheirismo compensa a falta de religião

Talvez seja interessante retomar http://aulasprofgilberto.blogspot.com.br/2018/03/a-reliquia-de-eca-de-queiroz-da_10.html antes de ler esta postagem:

Teodorico abraçou o antigo conhecido... Duas lágrimas rolaram em suas faces... Crispim fez uma careta e com bom humor protestou que o amigo estava bem feio.
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Logo começou o trabalho no escritório da fábrica na Pampulha... A rotina era perfeitamente suportável ao Teodorico: sempre bem vestido, cuidava de copiar cartas com sua letra marcada por formosas curvas... O mais era o preenchimento do livro de Caixa.
Teve de exercitar a “regra de três” para facilitar os cálculos e proceder aos registros... E tanto se dedicou ao ofício que em pouco tempo reconheceu que havia aprendido muito sobre o “negócio da fiação. O Crispim observou-lhe que, além da competência para os compêndios do Direito, suas aptidões “para as coisas sérias” saltavam aos olhos.

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Foi numa tarde de sábado do mês de agosto que o patrão chegou à sua carteira e lhe perguntou sobre qual missa costumava frequentar...
Crispim estava risonho e trazia um belo charuto... Acrescentou que no domingo iria com a irmã à missa de Santos, na Ribeira, onde a família tinha propriedade. Queria saber se Teodorico era muito apegado à missa que costumava frequentar, pois era com gosto que o convidava.
A missa começaria às nove... Almoçariam no Hotel Central e de lá embarcariam para Cacilhas. Crispim não escondeu que queria apresentar-lhe a irmã.
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No mesmo instante, Teodorico refletiu sobre o Crispim & Cia, um tipo conservador, que achava que a religião era “indispensável à sua saúde, à sua prosperidade comercial, e à boa ordem do país”... Visitava assiduamente o Senhor dos Passos da graça e era filiado à Irmandade de São José.
Evidentemente um tipo como ele não poderia suportar o antigo funcionário, que passou a escrever textos elogiosos a Renan num periódico republicano, o “Futuro”. O demitido costumava ultrajar o sacramento da Eucaristia!
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Teodorico sentiu o ímpeto de dizer que frequentava religiosamente à missa na igreja da Conceição-Nova, e que não se sentiria bem em faltar à próxima celebração.
Mas aconteceu que se lembrou da voz de sua consciência no quarto da Travessa da Palha... No mesmo momento abandonou a mentira que já lhe contaminava os lábios. Então foi com firmeza que respondeu que jamais ia às missas... Disse que elas não passavam de patranhas e que não acreditava que o corpo de Deus estivesse “todos os domingos num pedaço de hóstia feita de farinha”... Na sequência arrematou que “Deus não tem corpo, nunca teve” e, sendo assim, aquelas missas eram idolatrias e carolices.
(...)
Evidentemente as palavras de Teodorico revelavam-se duras... Sobretudo para alguém como o Crispim.
Foi por isso que finalizou dizendo que o patrão podia fazer o que bem entendesse. Ele entenderia... Sabia que por um momento havia sido importante para a empresa, mas, sendo o seu entendimento acerca da religião tão discrepante, a dispensa seria compreensível (seu antecessor fora demitido por causas semelhantes!).
Mas aconteceu que Crispim gostou da franqueza do Raposo... Disse que gostava de “gente lisa”... Revelou que o antigo funcionário mentia descaradamente ao lhe pronunciar elogios ao papa... E que depois ia para os bares falar absurdos sobre o Santo Padre.
Em síntese, Crispim deixou claro que não tinha a menor importância... Seu antigo conhecido e agora funcionário em seu escritório na Pampulha podia não ter religião... Mas tinha cavalheirismo. E isso lhe bastava.
Leia: A Relíquia – Coleção “Biblioteca Universal”. Editora Três.
Um abraço,
Prof.Gilberto

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