quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

“A Relíquia”, de Eça de Queiroz – da “Biblioteca Universal” – Topsius tece elogios aos discursos dos três; ao seu modo, cada um defendeu Israel, seu povo, sua religião e bens; enfim Teodorico descobre que o Rabi que tanta polêmica provocava era Nosso Senhor Jesus Cristo; “crosta de pecado” e desejo de ver Deus

Talvez seja interessante retomar http://aulasprofgilberto.blogspot.com.br/2017/12/a-reliquia-de-eca-de-queiroz-da_73.html antes de ler esta postagem:

Por razões diferentes, Manassés e Osânias defenderam a condenação do Rabi da Galileia que estava preso.
Durante toda aquela falação Gade manteve-se imóvel e em oração...
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Topsius entendeu que devia saudar os convidados de Gamaliel que se despuseram a se pronunciar tão francamente sobre a polêmica que envolvia o Rabi da Galileia e que, no final das contas, era o motivo que o havia levado àquela casa.
O alemão cruzou as mãos sobre o peito para saudá-los três vezes. Ele manifestou que dos espíritos daqueles homens emanava a verdade... Voltou-se para eles e afirmou que os via como três torres que guardavam “Israel entre as nações”... Disse que uma das torres defendia a “unidade da religião” e que uma outra mantinha o “entusiasmo da pátria”... Depois, referindo-se a Osânias, que chamou de “cauto e ondeante como a serpente que amava Salomão”, disse que ele protegia a ordem, e isso é o que há de mais precioso.
Ainda comparando-os a três torres, Topsius emendou que, contra cada uma delas, o Rabi da Galileia havia lançado “a primeira  pedrada”… Inatingíveis, cada uma se manteve firme guardando Israel, seu Deus, seus bens… De tudo o que tinha ouvido, pôde concluir que “Jesus e o Judaísmo nunca poderiam viver juntos”.
Gamaliel aproveitou a deixa para arrematar que era exatamente por aquele motivo que o levariam à crucificação.
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Foi com certa agitação no peito que Teodorico ouviu aquelas últimas palavras… Sentiu algo como que uma lâmina a atravessar-lhe. Por isso puxou a manga de Topisus querendo saber, afinal, quem era o “Rabi que pregava na Galileia”, que fazia milagres e que seria crucificado…
Topsius o fitou pasmado e sem acreditar que o companheiro de jornada não soubesse de quem estiveram falando naquela sala… Então respondeu secamente que trataram do “Rabi Jeschoua bar Joseph, que veio de Nazaré em Galileia, a quem alguns chamavam Jesus e outros também chamavam Cristo”.

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Esse trecho revela que, de fato, Teodorico estava confuso e que até então não tinha dado conta de que vivenciava, em Jerusalém, os momentos que antecederam a Paixão de Cristo.
O leitor não pode perder de vista que toda trama descrita por Eça de Queiroz no Capítulo III faz parte do longo (e louco) sonho de seu protagonista.
Até este ponto foram descritas várias situações polêmicas... É bom que se saiba que a sequência nos reserva eventos ainda mais chocantes.

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Teodorico espantou-se com a afirmação de Topsius…
Então quer dizer que para o sábio alemão a situação estava dentro da “normalidade”? O fato de estarem ambientados no tempo passado e em meio àquelas pessoas todas que fizeram parte do enredo que ele conhecia dos textos bíblicos não lhe causava estranheza?
(...)
Atordoado, atirou-se ao chão…
Seu primeiro impulso foi o de permanecer ajoelhado ou estirado e a rezar desesperadamente. Depois se sentiu atraído pela motivação de avistar Nosso Senhor e contemplá-lo com seus olhos mortais. Poderia, então, conhecer o Seu corpo e os panos que O cobriam.
A preocupação que dominou sua mente foi a respeito de sua condição de pecador… Já fazia muito tempo que não jejuava ou rezava o terço! Seria muita ousadia um tipo impuro como ele olhar diretamente nos olhos de seu Deus.
E puxando pela memória todas as suas dissimulações para ludibriar a tia Patrocínio, reconheceu que “jamais beijara, com suficiente amor, o pé dorido e roxo (de Cristo) na sua Igreja da Graça”.
E não era só isso… Lembrou que muitas vezes dissera impropérios contra as intermináveis missas dominicais que o atrasavam para as visitas que fazia à Adélia em busca de prazer.
Teodorico sentia que seu corpo, desde o crânio até as solas de seus pés, era “uma crosta de pecado”… O que seria dele quando os olhos de seu Senhor se voltassem para a sua direção? Aquilo provavelmente o fulminaria!
Leia: A Relíquia – Coleção “Biblioteca Universal”. Editora Três.
Um abraço,
Prof.Gilberto

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