sexta-feira, 8 de junho de 2018

“Mayombe”, de Pepetela – Lutamos é revistado; Sem Medo descobriu o larápio dos cem escudos; considerações dos guerrilheiros a respeito dos próximos passos e riscos de seguirem ao povoado do mecânico para lhe devolverem o dinheiro; da punição ao Ingratidão; um pouco das memórias guerrilheiras do comandante

Talvez seja interessante retomar https://aulasprofgilberto.blogspot.com/2018/06/mayombe-de-pepetela-sem-medo-termina.html antes de ler esta postagem:

O Comissário e o Chefe de Operações se manifestaram a respeito da revista proposta pelo comandante... Mas este não se interessava pelos gestos e fisionomias nervosas de ambos. Em vez disso ficou a estudar as reações de cada um dos guerrilheiros.
O oficial que chefiava as operações repetiu que não concordava com a desconfiança que recaía sobre os camaradas... Deu para perceber que alguns entre eles deixaram escapar “murmúrios de aprovação” ao seu discurso. O homem continuou a protestar que, se um dentre eles havia falhado em suas responsabilidades, não era justo que os demais passassem pela vergonha da desconfiança.
Obviamente ele se referia a Ekuikui, que não entregara o dinheiro ao Comissário. Todos notavam que o Chefe de Operações também dirigia críticas indiretas a este.
Sem Medo vociferou que já era tempo de pararem com os discursos. Deixou claro que o erro de um não justificava o roubo do dinheiro. Isso sim devia ser considerado uma sabotagem ao grupamento e ao movimento de libertação! Disse isso e chamou Lutamos para dar início às revistas.
(...)
Todos assistiram à revista em Lutamos... Tudo o que podia servir para ocultar uma nota de cem escudos foi verificado. Nada encontraram nele ou com ele.
Ele estava se vestindo quando o Comandante dirigiu-se rapidamente ao grupo que se colocou mais afastado da verificação. Foi de repente que agarrou-se ao braço de Ingratidão do Tuga. O armador de minas tentou se libertar e conforme se agitou deixou escapar o dinheiro.
Sem Medo protestou, disse que ele era um sacana e que já desconfiava dele “desde o primeiro momento”. Depois arrastou-o para o meio dos demais e revelou que Ingratidão passara a noite ao lado de Ekuikui e que, no momento mesmo em que faziam a revista em Lutamos, procurava enterrar o dinheiro para resgatá-lo mais tarde.
Ingratidão do Tuga confirmou que dormira ao lado de Ekuikui e que sabia do bolso onde a nota estava guardada... Confessou que roubou durante a noite...
Os camaradas o ouviam sem nada dizer. Mas era nítido que tinham suas posições em relação ao ocorrido, uns a favor e outros contra o infrator.
Sem Medo arrematou que Ingratidão seria julgado assim que chegassem à Base... Depois explicou que Ekuikui ficaria com a arma do larápio e cuidaria para que ele não fugisse pela floresta. Por fim voltou-se para este e o advertiu garantindo, que caso o Ingratidão escapasse, ele seria o julgado. Será que ele não se envergonhava por ter se deixado roubar? Será que não sabia dormir com apenas um dos olhos fechado?
Ekuikui explicou que estava muito cansado e por isso tivera sono mais pesado que o de costume.
(...)
Lutamos quis saber como encontrariam os trabalhadores para devolver o dinheiro. Àquela altura já deviam estar bem longe.
Teoria intrometeu-se a dizer que achava melhor procurarem os trabalhadores depois de efetuarem a emboscada aos tugas. Disse também que tinham o nome do mecânico e da localidade (kimbo) onde vivia, então poderiam se encaminhar para lá depois.
No mesmo instante o Chefe de Operações desaprovou a ideia afirmando que era arriscada. O Comissário disse que se apresentava como voluntário, que também se sentia responsável pelo ocorrido e que levava em consideração o “aspecto político” da devolução do dinheiro.
Mais uma vez o comandante Sem Medo interrompeu a discussão e garantiu que depois pensariam melhor na situação. No momento deviam seguir para a emboscada e esclareceu que, no caso de os tugas terem se antecipado a persegui-los, podia ser que se encontrassem mais à frente. Por isso propôs que fizessem um caminho diferente. Pelo menos tinham a vantagem de não estarem com pressa.
(...)
O grupamento guerrilheiro pôs-se a caminhar. Lutamos foi à frente... No meio estava Ingratidão do Tuga que, conforme determinara o comandante, seguia desarmado. Isso era um tanto arriscado, pois os inimigos podiam surgir de surpresa e ele faria falta no combate.
Já fazia quatro dias que os guerrilheiros haviam deixado a Base... As provisões estavam quase no fim porque haviam sido repartidas com os trabalhadores.
Não era por acaso que alguns já davam mostras de cansaço.
(...)
Sem Medo caminhava e pensava nessa situação... Levava a sua AKA acomodada no ombro e tinha o costumeiro chapéu cubano à cabeça... A aba escondia a cicatriz do balaço que lhe raspara a testa numa ocasião em que os inimigos os surpreenderam enquanto ele estava a banhar-se no rio (só escapou porque aproveitou que sangrava e fingiu-se de morto; os camaradas trocaram tiros por tempo suficiente para que ele pudesse se esconder atrás de umas pedras).
Como esquecer o episódio? Foi conduzido quase nu à Base! Lutava no grupamento de Henda (acessar https://aulasprofgilberto.blogspot.com/2018/05/mayombe-de-pepetela-um-pouco-sobre-o_21.html), e este não pestanejou em puni-lo com rigor pela perda do cantil e do cinturão que haviam sido tomados pelos inimigos.
Leia: Mayombe. Editora Leya.
Um abraço,
Prof.Gilberto

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