sexta-feira, 1 de junho de 2018

“Mayombe”, de Pepetela – destruindo o trator; borrando-se de medo; minas antipessoais e bilhete malcriado aos soldados imperialistas; interrogando os trabalhadores prisioneiros

Talvez seja interessante retomar https://aulasprofgilberto.blogspot.com/2018/06/mayombe-de-pepetela-rajadas-durante.html antes de ler esta postagem:

Logo que ouviu os primeiros tiros, o motorista do buldôzer saiu em disparada na direção do matagal.
Os guerrilheiros se aproximaram do trator enquanto Sem Medo dava as ordens para bazucar o veículo e queimá-lo na sequência.
Um dos trabalhadores que se contorcia e apertava a barriga pediu permissão para se retirar por uns instantes... Mundo Novo respondeu que ele podia se retirar para defecar.
A bazuca provocou um grande estrondo e o resultado foi uma tremenda avaria no motor do trator... Depois foi o cheiro da pólvora se misturando ao odor das fezes do tipo amedrontado e que não tivera tempo de se afastar.
O moço ficou visivelmente envergonhado... O Comandante viu que Mundo Novo o olhava e não pôde conter a gargalhada escandalosa. De fato, a situação do outro era das mais constrangedoras, já que sequer conseguira baixar as calças.
(...)
Tomando ares de seriedade, Sem Medo disse que era momento de incendiar o trator... Não restara nenhuma peça que pudesse interessar-lhes no amontoado de sucata. Foi assim que juntaram lenha e a ensoparam com gasolina para iniciarem o fogaréu.
As chamas atingiram elevada altura... Os quatro prisioneiros foram afastados por dois guerrilheiros... Ingratidão do Tuga tratou de instalar e camuflar três minas perto do buldôzer destruído.
Depois o Comandante tomou uns papéis onde escreveu:

                   “Sacanas colonialistas,
                   Vão à merda, vão para a vossa terra.
                   Enquanto estão aqui,
                   Na terra dos outros,
                   O patrão está a comer a vossa mulher
                   Ou irmã, cá nas berças!” (conforme o texto - p.32)

O papel foi deixado em posição de evidência e no meio da área onde as minas foram instaladas. O camaradas sorriram da iniciativa do Comandante... O Chefe de Operações disse o que todos ali já sabiam a respeito da armadilha... Qualquer tuga sacana mais curioso de ler o bilhete iria pelos ares.
Ingratidão lamentou não ter armado mais minas... O Comandante ordenou a retirada... Não podiam perder tempo.
(...)
Os guerrilheiros conduziram os prisioneiros pelo Mayombe ao “ponto de recuo”. Ao todo haviam feito dez prisioneiros.
O Comandante percebeu que o mecânico era o mais instruído entre os trabalhadores, então perguntou-lhe a respeito da picada aberta até a área de corte das árvores... O tipo explicou que ela tinha uns cinco quilômetros e dava acesso à estrada entre Sanga e Caio Nguembo.
Sem Medo quis saber quantos soldados havia no quartel. O mecânico mostrou que não sabia, pois voltou o seu olhar para os demais trabalhadores. Nenhum deles se pronunciou e foi por isso que ele sugeriu que talvez fossem uns cem. Nem todos eram tugas. Certamente havia soldados angolanos que faziam parte de Tropas Especiais.
(...)
Novas perguntas foram feitas e dessa vez direcionadas a outros trabalhadores. Aquele que havia sido capturado por Mundo Novo era um jovem de quatorze anos e não se intimidava ao falar. O mecânico tinha um olhar inquieto e desconfiado, e a todo momento fitava os demais. Sem Medo era o guerrilheiro que mais chamava a sua atenção.
Lutamos pediu autorização para se comunicar com os detidos em “fiote” (que é o dialeto dos originais da Cabinda). O Chefe de Operações respondeu no mesmo instante que não havia necessidade... O Comissário quis dizer algo a respeito, mas foi impedido pelo Comandante. Este resolveu continuar o interrogatório em português, a língua que bem ou mal todos conheciam.
Leia: Mayombe. Editora Leya.
Um abraço,
Prof.Gilberto

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