domingo, 24 de junho de 2018

“Mayombe”, de Pepetela – o comandante percorreu as posições para animar os camaradas; a angústia da espera pelo combate e o “fantasma” que atormentava Sem Medo

Talvez seja interessante retomar https://aulasprofgilberto.blogspot.com/2018/06/mayombe-de-pepetela-ainda-narrativa.html antes de ler esta postagem:

Foi decidido que aguardariam até às cinco...
O Comissário propôs o recuo, mas as palavras do Chefe de Operações foram mais convincentes.
Os guerrilheiros se posicionaram ao longo da estrada.
(...)
Sem Medo percorreu com todo o cuidado as distâncias que os separavam... Os homens estavam sonolentos... Alguns adormeciam ele tratou de lhes dirigir sussurros para despertá-los e mantê-los empolgados para o combate. Em resposta, os camaradas sorriam e davam piscadelas.
Sem Medo seguiu animado por concluir que, apesar das diferenças e até mesmo do desprezo de alguns em relação à sua pessoa, a “solidariedade do combate” fazia com que se tornassem mais amáveis.
O Ingratidão recebeu sua arma de volta para que pudesse participar ativamente da emboscada... Ekuikui foi incumbido de vigiá-lo. Sem Medo entendeu que os homens estavam preparados. Aproximou-se de Teoria, que percebeu o motivo da aproximação e foi logo dizendo que seu “segundo eu” estava prevalecendo, sendo assim, não havia motivo para preocupações. O Comandante respondeu que sabia que não tinha razões para isso.
Faltava conferir a condição do camarada mais avançado, que fazia a guarda e sinalizaria a aparição dos inimigos. Sem Medo avançou até sua posição... O homem perguntou se a ação havia sido cancelada. O Comandante respondeu negativamente, pois estava convicto de que os tugas apareceriam a qualquer momento. O outro reclamou que sentia fome.
Sem Medo sabia da condição de seus comandados, então respondeu ao rapaz que também ele estava ansioso e que ainda nem tinha fumado durante todo aquele dia.
(...)
Sem Medo retornou à sua posição... Espantava a sonolência conferindo o relógio diversas vezes... Às quatro da tarde a escuridão baixou sobre o sítio da emboscada. Ele sabia que o maior problema era a espera, pois logo que ação se iniciasse “os fantasmas ficavam para trás”.
Ele mesmo tinha desses fantasmas... Nessas ocasiões de espera sempre lhe ocorriam as recordações dos tempos de juventude e dos camaradas mortos durante os longos anos de combate.
O rosto de Leli surgia em seus pensamentos... Fazia pelo menos meio ano que sua imagem não o atormentava. No entanto, durante a espera pelo início da emboscada, a fisionomia da amada retornou...
(...)
Neste ponto da narrativa vemos Sem Medo angustiado e tomado pela lembrança do dia em que atacaram o Posto de Miconje. A chuva era torrencial e o piso estava enlameado... Depois de uma longa jornada pela noite, conseguiram atingir o local às seis da manhã.
Certamente a tensa expectativa contribuiu para que a imagem de Leli viesse atormentá-lo naquela ocasião... É bem verdade que as condições de visibilidade eram as piores que se possam imaginar... A mata fechada e os grossos pingos da chuva eram de cegar! Mas isso não parecia preocupá-lo mais do que o seu pensamento persistente em Leli.
Essa angústia prevaleceu até o instante de gritar a ordem para atacar. Urrou tal como animal selvagem e o combate iminente o libertou da imagem de mulher que o perseguia.
(...)
Mas que tanto mal a visão de Leli lhe fazia?
Os olhos dela surgiam-lhe acusativos. Eram meigos, mas denunciavam um desejo de vingança. Aqueles olhos revelavam a condição dos que se sentem abandonados!
O Comandante não podia suportá-los e para afastar o sentimento de culpa que o invadia quis gritar.
Mas isso estava fora de cogitação... A tarde avançava... Já eram quatro e quinze! O inimigo custava a aparecer, então, por não ter como ordenar o avanço para o tiroteio, teve de fazer um exercício de paciência.
Todavia o caso era dos mais complicados e ele começou a sentir cólicas. Manteve o olhar fixo na estrada e as mãos cravadas em sua arma (a AKA) e sentiu que os cotovelos adormeciam... Os olhos de Leli prevaleciam com suas súplicas e acusações que ele conhecia de há muito tempo.
E em síntese os ofensivos olhos da mulher, a visão que mais o atormentava, cobravam vingança pelo modo como ele a tornou apaixonada mesmo sabendo que o relacionamento de ambos não tinha a menor condição de prosperar. Se ele sabia que o engajamento na guerrilha era o que mais desejava, por que a seduziu?
(...)
Por um instante ele a imaginou iluminada pela luz do luar, a correr nua numa praia repleta de coqueiros... Nessa visão os dois terminavam romanticamente abraçados na areia.
Isso foi demais. Sem Medo quis correr na direção onde os inimigos apareceriam e disparar todos os seus cartuchos só para fazer Leli sumir de uma vez por todas de seus pensamentos.
Estava para fazer uma loucura quando notou o guarda a fazer sinais na posição dianteira.
Leia: Mayombe. Editora Leya.
Um abraço,
Prof.Gilberto

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