domingo, 10 de junho de 2018

“Mayombe”, de Pepetela – ainda a troca de ideias entre o comandante e o professor a respeito do medo; dos modos errados de se combater o medo; os desabafos e o enfrentamento do medo e do preconceito de cor como “terapia”; o exemplo da confissão nas igrejas; os medos do comandante

Talvez seja interessante retomar https://aulasprofgilberto.blogspot.com/2018/06/mayombe-de-pepetela-pescaria-banhos.html antes de ler esta postagem:

O Comandante sentiu que podia ajudar Teoria a enfrentar de uma vez por todas o seu medo pessoal... Disse-lhe que todos padecem do problema e que a saída é “dominar o medo e ultrapassá-lo”.
Talvez fosse necessário “ultrapassar” o medo escancarando atitudes que possibilitem a observação dos que estão à nossa volta... Às vezes pensamos que nos observam atentamente, mas nem sempre é isso o que de fato ocorre... Todavia, ainda que apenas imaginemos que estamos sendo observados, é ai que “ultrapassamos o nosso medo”.
(...)
Talvez Sem Medo tivesse exemplificado sua própria experiência ao narrar sobre o episódio da luta que retomou com o grandalhão na época de sua infância... O caso é que ao que tudo indicava o professor dava muita importância ao que pensavam a respeito dele. Então o Comandante deixou claro que no grupamento ninguém implicava com a sua cor, e que ele era completamente aceito por todos.
Certamente não seria de uma hora para outra que o professor iria se sentir libertado de seu complexo. Sem Medo salientou que ele mesmo tinha de se aceitar como era. Será que não percebia que era o mais respeitado pelos demais? Todos nutriam simpatias por ele!
O professor respondeu que já havia estourado dos nervos muitas vezes... No mesmo instante o Comandante disse que o companheiro passara apenas por algumas ameaças... Ele devia falar mais, desabafar... Sendo assim, sempre que se sentisse mal podia procurá-lo para uma conversa amigável. Definitivamente não era bom “guardar as angústias para si”.
Na sequência, Sem Medo emendou que muitos tendiam a se libertar daquele sufoco pessoal envolvendo-se com afinco nas ações... Havia os que descontavam na bebida ou surrando a mulher.
O comandante salientou que, para ele, a ação perdia o valor quando utilizada apenas para o desafogo da consciência... Embebedar-se ou bater na mulher eram coisas covardes e abomináveis que ele só podia reprovar. Então restava a “conversa franca”.
(...)
Para ainda mais convencer seu interlocutor, o comandante disse que não era por acaso que os padres haviam criado a confissão, que se parece muito com um desabafo daquele que sente a consciência pesada. Não seria por isso que o Cristianismo foi tão bem aceito no decorrer do tempo?
O homem destacou ainda que há mesmo algumas “seitas protestantes” em que a confissão é pública. Depois observou que nesses casos as pessoas podiam não ser tão profundas ou francas em suas falas.
O próprio comandante concluiu que o último modelo que ele mesmo citou podia atender mais as expectativas burguesas... Mas quem era ele para falar a respeito? Suas confissões dos tempos de catolicismo nunca foram francas!
(...)
Lutamos havia conseguido fisgar um belo peixe... Os demais camaradas ficaram tão eufóricos que se puseram a gritar. Por isso foram advertidos pelo comandante.
(...)
Teoria pensou em tudo o que ouvira... Depois perguntou se seus medos podiam passar algum dia... Desabafou que quando era criança nunca fora tipo dos combativos (como o comandante afirmara ter sido). Como nunca havia se lançado a uma experiência como a que ouvira, tinha de perguntar se permaneceria indefinidamente em pânico.
Sem Medo respondeu que o maior problema do professor era o complexo racial... Teria de deixar de se rebaixar! E, além disso, acostumar-se aos desabafos. Isso à parte, era certo que ele mesmo já se impusera alguns combates, então era tempo de já ir se habituando.
Teoria quis saber se o comandante nunca sentia medo... Ele respondeu afirmativamente... Algumas vezes sentia o pulso acelerar, sentia frio e até dores de barriga. Nos momentos de maior perigo procurava manter a calma e a lucidez. Não era produtivo assustar-se... Podia dizer que sempre procurava o medo e também afirmar que não tinha medo de morrer “a frio”. Seu medo era o de amedrontar-se no momento em que notasse que sua hora estava chegando. Isso seria perder o respeito a si mesmo.
Seria o mesmo que anular de um momento para outro todo o conceito que se faz de si, algo que “se levou uma vida inteira a forjar”.
(...)
A conversa terminou assim que o Chefe de Operações se aproximou para perguntar se já não era momento de preparar o almoço.
Leia: Mayombe. Editora Leya.
Um abraço,
Prof.Gilberto

Páginas