terça-feira, 3 de julho de 2018

“Mayombe”, de Pepetela – os guerrilheiros reencontram o mecânico nas proximidades de sua aldeia; detalhes da ação e aproximação perigosa; o assustado trabalhador oferece o dinheiro ao movimento

Talvez seja interessante retomar https://aulasprofgilberto.blogspot.com/2018/07/mayombe-de-pepetela-o-comando-discute.html antes de ler esta postagem:

Às sete horas, o Chefe de Operações conduziu a maior parte do grupamento para a Base. O Comandante Sem Medo chamou dois dos guerrilheiros para acompanhá-lo. Os três dariam cobertura à ação do Comissário, Lutamos e Mundo Novo.
(...)
O Comissário e o Comandante tomaram o cuidado de evitar as trilhas que davam para a mata. Por volta do meio-dia se aproximaram da aldeia. Os guerrilheiros ouviram as conversas dos adultos em seu cotidiano e o choramingar de crianças, então procuraram um sítio mais afastado para prepararem o almoço.
Mais tarde, Lutamos e Mundo Novo partiram para um reconhecimento da área. Retornaram depois de umas três horas e Sem Medo foi logo querendo saber se havia saldados no local. Os dois explicaram que não se aproximaram demais e por isso não traziam muitas informações. Não quiseram deixar rastros... Disseram que localizaram o caminho que dava para a estrada.
O Comissário considerou que ele, Lutamos e Mundo Novo podiam seguir para o local, onde dormiriam... O Comandante ficaria com os outros dois camaradas. Sem Medo deu sinal de aprovação, mas segredou ao oficial que o Chefe de Operações havia alertado que deveriam tomar muito cuidado com Lutamos, de quem deviam desconfiar sempre.
O Comissário fez ares de interrogação querendo saber se o Comandante pensava o mesmo... Ele respondeu negativamente, mas acrescentou que achava importante compartilhar a preocupação do outro. O oficial não prolongou o assunto e apenas sentenciou que se Sem Medo tivesse retornado para a Base, conforme sua sugestão, podia estar a fumar tranquilamente naquele mesmo momento.
O chefe respondeu que era preciso “saber retardar o prazer”.
(...)
Depois de uma hora de caminhada, o Comissário, Lutamos e Mundo Novo chegaram ao local onde pretendiam passar a noite.
O avançado da hora já tornara escuro o ambiente. Os três posicionaram-se a cerca de dez metros da estrada e envolveram-se na folhagem que se emaranhava às lianas, assim tornaram-se invisíveis e adormeceram.
De madrugada,  foram despertados pelas vozes que iniciavam o dia na sanzala... Os guerrilheiros tinham os corpos doloridos e trataram de se libertar das raízes incômodas. Logo iniciaram o avanço em direção à estrada e se posicionaram bem perto de onde as pessoas passariam.
Os latidos dos cães geravam a desconfiança de que talvez não estivessem tão escondidos. Mundo Novo chegou a pensar na estranheza da situação, já que estavam escondidos na tentativa de entregar dinheiro a um homem. Mas podiam ser confundidos com ladrões que pretendessem subtrair algo das pessoas de bem. O colonialismo podia provocar aquele tipo de aberração!
(...)
Dois homens vinham pelo caminho... Eles conversavam sobre o episódio do ataque guerrilheiro ao local de extração da madeira.
Os guerrilheiros se empolgaram, mas o Comissário alertou que não podiam se aproximar mais... Por fim Lutamos quem afirmou que nenhum dos tipos era o mecânico. Ele podia garantir porque conhecia a voz.
Depois de uns quinze minutos, surgiu novo vulto no caminho. Dessa vez era uma mulher que se dirigia para a lavra.
O dia já se tornava claro... Há uns dez metros avistaram outros dois tipos. Dessa vez reconheceram que um deles era o mecânico... O outro era o mais velho, aquele mesmo que tinha uma das pernas defeituosa.
O Comissário esperou o momento mais apropriado para chamar... Quase que a sussurrar, exclamou “Malonda!” O mecânico voltou-se para o local desde onde vinha o chamado, então Lutamos retirou-se da camuflagem para se anunciar e pedir que ele se aproximasse.
Os trabalhadores reconheceram o guerrilheiro... Por um instante ficaram desconfiados e olharam na direção da aldeia. Lutamos insistiu para que se aproximassem e assim eles fizeram.
O mecânico e o mais velho saíram do caminho e acompanharam os guerrilheiros para local mais afastado. Depois o Comissário explicou que estavam ali para devolver o dinheiro que havia sido roubado por um dos camaradas. Emendou que ele seria devidamente “julgado e castigado” pela atitude indevida.
Ainda assustado, o trabalhador perguntou se tinham ido até ali apenas para devolver-lhe o dinheiro... Na sequência disse que a iniciativa havia sido das mais perigosas. Mundo Novo respondeu que pertenciam ao MPLA, movimento revolucionário que defendia o povo... De modo algum admitiam prejudicar a gente do povo!
O mecânico disse que não havia a menor importância e que teria sido melhor não procurá-lo. O Comissário explicou que fizeram o que tinham de fazer. Salientou que não queriam que pensassem que os guerrilheiros eram bandidos, como os portugueses propagavam.
O homem insistiu que não se importava, e que oferecia o dinheiro ao movimento. Garantiu que estava sendo sincero.
Leia: Mayombe. Editora Leya.
Um abraço,
Prof.Gilberto

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